A louca da biblioteca
impressões e pulsações
fevereiro 21, 2012
Em dias assim...
saudade da disposição para a vertigem, quando bruxa e pássaro
retorno às origens em dias assim ensombrados e gélidos
quando fecho os olhos para que minha alma singre à vontade
inacreditavelmente refrescada
rendo-me ao vento que então sopra, em lassidão
braços abertos - ah, salve-me!
no entanto, o instante logo me golpeia
com sua efemeridade
e o estado de graça desequilibra-se e cai do espaço
para a palavra
resta apenas um perfume de hora molhada
um quê de jasmim, talvez - rastros feéricos.
janeiro 25, 2011
a coisa que sou sobrevive sombra de si mesma
contemplo a tarde abandonada pela chuva
o último sol não intimida o cinza que se instala sobre o tempo
alguém no céu remunga e rabisca efêmeros traços de luz
no horizonte
pequenos pássaros decifram a ameaça secreta
e retornam - sim, eles têm para onde retornar
alguém resmunga e eu espero ser tomada pela tempestade
enquanto sinalizo meus livros e pastoreio palavras (que não herdei
contudo, peregrinas, manifestam-se)
outubro 26, 2010
Seguindo Clarice, a Lispector
Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então. Deixo-te estilhaçar o
encanto com um sorriso amoroso para a taça de vinho; e tu, deixa-me vadiar pelo
teu ser, noturna e fugidia mas em ebulição. Deixo-te cobiçar outras peles e
perfumes, anonimamente; e tu, deixa-me seguir pelas horas, consciente do perigo
mas enfeitiçada, não só pela lua cobrindo o jardim com um prateado suavemente
azulado. Deixo-te despir-se, mostrar-se, alma tântrica e insuspeita leviandade;
e tu, deixa-me apenas saber-te figura clássica sob uma árvore, saboreando
felicidades clandestinas, cantata em latim sob a chuva, enquanto eu,
desajeitado miosótis, indecifrável sentimento aquecendo-me, alimentando-me e
morrendo-me viscontinianamente numa praia italiana, ao pôr-do-sol. Eu te deixo
ser realidade pura e imperfeita e imprevista e desejada. Deixa-me apenas com a
flor pagã do meu segredo. O silêncio perfeito de uma flor. Macio
como quando se fecha a luz para dormir. E faz o botão da luz um
barulhinho que quer dizer: boa noite, meu amor. Perdoe-me pelo caos no
meu planeta.
* Trechos em negrito: Clarice Lispector
* Imagem: Wake Up - blog Ubiquitense
setembro 21, 2010
Madrugada
É
noitemanhã. Dor na nuca, ventilador ligado, falso silêncio na rua
(aquele mesmo de pescador só pra iludir o peixe e levá-lo à isca),
porque logo uma buzina toca, é um código ilícito, e ninguém fará nada,
pois todos já estamos perigosamente na caminho com Maiakóvski.
As notícias nos jornais quase em nada lembram humanidade, porque quase
nada mais há de humanidade - faz-se necessário não mais disfarçar, para
não cair na hipocrisia: a época é luciferina.
E eu só queria que você respeitasse minha insônia e meu ser caracol. Há
horas em que a palavra demora aqui dentro, senta-se à beira da estrada e
só quer ficar a ver navios e sonhos e miragens passando. Há horas que
são por um triz, há horas em que estou por um fio e preciso calar. Não
precisa entender. Apenas respeite a porta fechada, o livro aberto, a mão
e a caneta, os ouvidos selados, o ócio, a carne sem libido, os meus
últimos segredos. Os cães o sabem. Os cães!
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