setembro 21, 2010

Madrugada

   
   É noitemanhã. Dor na nuca, ventilador ligado, falso silêncio na rua  (aquele mesmo de pescador só pra iludir o peixe e levá-lo à isca), porque logo uma buzina toca, é um código ilícito, e ninguém fará nada, pois todos já estamos perigosamente na caminho com Maiakóvski.
   As notícias nos jornais quase em nada lembram humanidade, porque quase nada mais há de humanidade - faz-se necessário não mais disfarçar, para não cair na hipocrisia: a época é luciferina.
   E eu só queria que você respeitasse minha insônia e meu ser caracol. Há horas em que a palavra demora aqui dentro, senta-se à beira da estrada e só quer ficar a ver navios e sonhos e miragens passando. Há horas que são por um triz, há horas em que estou por um fio e preciso calar. Não precisa entender. Apenas respeite a porta fechada, o livro aberto, a mão e a caneta, os ouvidos selados, o ócio, a carne sem libido, os meus últimos segredos. Os cães o sabem. Os cães!

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